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sábado, 11 de junho de 2011

De verdade, quem precisa ser salvo?

De verdade, quem precisa ser salvo?
Ricardo Gondim


Entre as parábolas desconsertantes que Jesus contou, uma inquieta bastante. Para esvaziar a empáfia dos que se achavam melhor que os outros, eis a história de Lucas 18.9: “Dois homens subiram ao templo para orar; um era fariseu e o outro publicano. O fariseu em pé, orava silenciosamente: ‘Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens: ladrões, corruptos, adúlteros; nem mesmo como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho’. Mas o publicano ficou à distância. Ele nem ousava olhar para o céu, mas batendo no peito, dizia: ‘Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador’”. O arremate de Cristo veio como um cruzado de esquerda no queixo dos religiosos: “Eu lhes digo que este homem [o indigno publicano] e não o outro [o moralista religioso] foi para casa justificado diante de Deus”.

Ao contrário do senso comum, os religiosos são os primeiros a carecer de salvação. Deles brota o fermento que pode estragar o divino projeto de humanização. Da arrogância de se verem eleitos, pinga o veneno da hipocrisia. Jesus quer, sim, salvar televangelistas, pastores, apóstolos e bispos. Mesmo as estrelas de primeira grandeza da religião podem ser alcançados pelo amor de Deus. Ninguém está irremediavelmente perdido. Ora, ora, se Cristo salvou Nicodemos, Zaqueu e Saulo de Tarso, gente bem escolada no be-a-bá da presunção, por que não eles? Vale lembrar: o juízo divino começa sempre pelos bastidores, sacristias e gabinetes pastorais. E ele julga porque todos são amados de Deus, inclusive pilantras paramentados. Jesus quer resgatar cínicos que engomam seus colarinhos clericais com o polvilho branco do oportunismo eclesiástico; eles também merecem o céu. Mas, se eles podem herdar o Paraíso, o que seria necessário para a salvação de um religioso?


Salvação chega à casa do religioso quando ele se dispõe a calçar as sandálias do pobre. Os palavrórios idealizados, sem conexão com a realidade, se esvaziariam caso um sacerdote se visse obrigado a esperar por atendimento médico em algum banco enferrujado de ambulatório público. 

Será que o evangelista engravatado imagina o drama da mãe solteira, negra e subempregada que procura por creche para deixar o filho e ganhar um pão amassado? Desses que viajam de helicóptero, quem estaria disposto a viver, só por um mês, a sorte do pai que vê o filho crescer próximo ao ponto de venda de tóxico? Quantos já experimentaram dormir com fome? Será que entendem a lógica do capitalismo que empurra as pessoas para o beco sem saída da exclusão social? Simples: qualquer pessoa que trata com leviandade a sorte do pobre precisa de salvação.


No outro lado dessa moeda embotada, redenção também é necessária. O que dizer de quem ostenta em nome do Nazareno? O que dizer da luxúria? Anéis, relógios e automóveis caríssimos levantam a suspeita: vários deles não embarcaram no carreirismo religioso exatamente porque queriam fugir da marginalização econômica que um dia vivenciaram?


Cristo salva o pastor que for sensível aos que se angustiam nas seções de hemodiálise, às famílias que aguardam transplante de pulmão, às clínicas de fisioterapia onde mutilados e paraplégicos reaprendem a andar, às Unidades de Tratamento Intensivo dos hospitais infantis onde crianças cancerosas precisam ser amarradas para receber quimioterapia.


Os que vivem da grandiloquência do discurso dogmático podem ser resgatados caso aprendam a solidarizar-se com refugiados de guerra ou se souberem valorizar o esforço dos Médicos sem Fronteira que cuidam do refugo humano que o capitalismo demoníaco produz pelo mundo a fora. 

Enquanto sacerdotes tagaleram doutrinas, no máximo geram prosélitos, e condenam a si e seus seguidores ao inferno duplo da beatice sem relevância.


Jesus pode libertar o televangelista, mas é necessário que ele guarde o escrúpulo de não expoliar o motoboy que arrisca a vida para ganhar um salário minguado, a empregada doméstica que se submete aos caprichos da madame da classe média, o carvoeiro que vive na boca de fornalha para não faltar carvão no churrasco do restaurante de luxo, a enfermeira que enfrenta madrugadas frias. 
Sacerdote que insiste em propagandear superstições deve saber que seu caminho é o do cego que guia cego.


Deus não tem prazer na perdição do religioso. Ele insiste: “Eis que estou à porta e bato”. Enquanto perdurar o sistema que legitima a alienação e enquanto houver gente se valendo do sagrado para confundir delírio com esperança, será preciso escutar a admoestação do fim dessa parábola de Jesus: “Pois quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado”.

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